Estudos da McKinsey revelam que apesar do aumento de investimentos em tecnologias verdes, o mundo ainda caminha lentamente para cumprir as metas do Acordo de Paris

A transição energética global entra em uma fase decisiva em 2026. Depois de anos marcados por metas ambiciosas e anúncios bilionários, o desafio agora é transformar as soluções em infraestrutura, indústria e escala real.

É o que revelam dois estudos inéditos da consultoria McKinsey: apesar do crescimento acelerado dos investimentos em tecnologias verdes, o mundo ainda está longe do ritmo necessário para cumprir as metas de neutralidade de carbono até 2050 e isso traz impactos diretos sobre competitividade, segurança energética e geopolítica.

“A transição exige mais do que metas: demanda ação imediata e escala tecnológica robusta”, afirmou Mekala Krishnan, parceira do McKinsey Global Institute e à frente da pesquisa, em entrevista à EXAME.

Segundo a especialista, os dados mostram que atualmente estamos caminhando a cerca de metade da velocidade necessária para cumprir as metas alinhadas ao Acordo de Paris, e acelerar exige “ser realista sobre os desafios à frente”.

Entre 2019 e 2023, os investimentos globais em tecnologias climáticas somaram US$ 683 bilhões (R$ 3,5 trilhões),um volume seis vezes maior do que o registrado cinco anos antes.

Por outro lado, há um desequilíbrio: 80% dos recursos se concentraram em apenas quatro soluções já consolidadas: energia solar, eólica onshore, veículos elétricos e baterias.

Enquanto isso, outras inovações consideradas essenciais para a descarbonização da indústria pesada, como hidrogênio verde e captura e armazenamento de carbono, continuam subfinanciadas.

De acordo com a McKinsey, os 25 desafios físicos da transição em 2026 se dividem em três níveis:

  • Tecnologias maduras e de rápida expansão, onde a estratégia é “jogar no ataque” e capturar valor rapidamente nas geografias mais atraentes;
  • Gargalos como cadeias de suprimentos críticas ou infraestrutura limitada, que exigem colaboração e inovação para desbloquear o progresso;
  • Desafios mais complexos e incertos, onde a inovação é fundamental, seja em baterias mais eficientes ou parcerias para mudanças sistêmicas.

“Embora os desafios mais complexos estejam longe de serem totalmente resolvidos, ainda há oportunidades de progresso de curto prazo, como aumentar a eficiência energética em processos industriais pesados”, afirmou Mekala.

Tiago Devesa, também da McKinsey, destaca que a transição não ocorre de forma uniforme.

“Algumas partes do sistema avançaram rapidamente, a exemplo da capacidade solar que dobrou entre 2022 e meados de 2025, e as vendas de carros elétricos já representam quase 25% do mercado global. Mas setores como hidrogênio e indústria pesada ainda estão abaixo de 1%”, citou.

O especialista também aponta diferenças regionais. A China responde por cerca de dois terços das adições recentes de solar, eólica e EVs, enquanto outros mercados emergentes estão acelerando: na primeira metade de 2025, a Índia adicionou 22 GW de solar e eólica e superou os EUA nesse período.

No Brasil, a mobilidade elétrica avançou rápido, com vendas de veículos a bateria crescendo seis vezes entre 2022 e 2024, atingindo 6% do total de vendas.

Janela de oportunidades para o Brasil

No contexto brasileiro, Tiago alerta para oportunidades e desafios. O país tem vantagens únicas como uma matriz elétrica limpa, base industrial relevante e acesso a recursos naturais como minerais críticos, “mas precisa alinhar investimentos, política industrial e inovação para liderar”, disse.

“A demanda global por lítio pode crescer até 700% até 2030. Para o Brasil, isso é tanto uma oportunidade estratégica quanto um risco de repetir o papel de exportador de matéria-prima”, exemplificou.

Para o especialista, 2026 será um ponto de inflexão: será essencial não pensar só em reduzir emissões, mas também em custo, confiabilidade e competitividade.

“A geopolítica e o aumento da demanda por energia devido aos data centers que alimentam a IA podem acelerar ou complicar a transição, dependendo de como os mercados se ajustarem”, complementou Tiago.

Tecnologias que podem mudar o jogo

Segundo Mekala, “não há bala de prata: avançar na transição exigirá uma combinação de tecnologias”.

Entre as mais promissoras estão baterias melhores e mais baratas para armazenamento energético, que caíram mais de 25% nos últimos dois anos, além de energia geotérmica aprimorada e pequenos reatores modulares (SMRs), que já registraram avanços importantes.

“Um dos grandes diferenciais será não apenas quais usamos, mas como as ‘interligamos’. Por exemplo, a variabilidade da energia de baixo carbono pode ser equilibrada com demanda flexível e plantas a gás como ‘backup’. Também estamos repensando materiais, usando alternativas para substituir insumos industriais difíceis de descarbonizar”, explicou a executiva.

Na prática, a transição energética deixa de ser apenas um compromisso ambiental e se consolida em 2026 como um teste de competitividade e capacidade de implementação para empresas e países.

Fonte: Exame

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