Para a companhia, mercado passa a exigir resultados ambientais efetivos e investimentos de longo prazo

Realizada pela primeira vez no coração da Amazônia, a Conferência das Partes (COP) elevou o nível de cobrança sobre empresas e governos. As conversas da COP30 mostraram que não basta reconhecer a crise climática como um problema global; é preciso realizar mudanças efetivas para que desenvolvimento econômico e preservação ambiental avancem juntos. O desafio, agora, é transformar os debates em ações verificáveis, investimentos de longo prazo e impactos duradouros.

Para empresas com presença industrial na Amazônia, o pós-COP30 impõe também um teste de credibilidade. A cobrança, inclusive, não é apenas sobre planos futuros, e sim sobre resultados já entregues. Nesse contexto, a Norsk Hydro Brasil fez questão de aproveitar o evento para apresentar algumas ações já implementadas, sinalizando que a transição para uma economia de baixo carbono não pode depender apenas do calendário das grandes conferências internacionais.

“Acreditamos que é possível ter sucesso em contribuir para um futuro positivo para a natureza e garantir uma transição justa para todos. Sabemos que é possível conciliar desenvolvimento industrial com transição energética, respeitando os Direitos Humanos e a Amazônia. Em um futuro de baixo carbono, o mercado vai valorizar iniciativas que considerem essas práticas”, analisa Anderson Baranov, CEO da Norsk Hydro Brasil.

Durante a conferência, a empresa norueguesa reforçou o seu compromisso com a transição energética, reiterando as metas de reduzir 30% das emissões até 2030 e alcançar carbono neutro até 2050 ou antes. A companhia afirma que, desde 2022, participou de investimentos de cerca de R$ 12,6 bilhões no Brasil, destinados a uma matriz mais limpa e a soluções de baixo carbono.

“Aproveitamos a COP30 para participar ativamente de diversos painéis e discussões, além de encontros com comunidades e com representantes de entidades dos setores do alumínio e da mineração, reforçando o nosso compromisso com a escuta e o desenvolvimento local”, destaca o CEO.

Impactos reais

Segundo Baranov, a Hydro apresentou “o maior projeto de descarbonização em operação no país”. Trata-se da substituição integral do óleo combustível por gás natural na Alunorte, a maior refinaria de alumina do mundo. A mudança, somada à instalação de caldeiras elétricas abastecidas por energia renovável, tem potencial de reduzir 1,4 milhão de toneladas de CO₂ por ano, segundo dados da Hydro.

Outro projeto destacado por Baranov é o uso de biomassa oriunda do caroço de açaí, um insumo regional que vem sendo misturado ao carvão mineral para geração de vapor nas caldeiras da refinaria. Apenas em 2023, foram consumidas 13 mil toneladas do material, com meta de alcançar 125 mil toneladas até 2025. O projeto pode reduzir até 400 mil toneladas de CO₂ por caldeira convertida, ampliando o caráter local da estratégia de descarbonização.

“A Hydro mantém no país o compromisso com a mineração responsável, avança na descarbonização da refinaria de alumina e consolida eficiência operacional na produção de alumínio de baixo carbono com o uso de energia renovável. As operações no Pará são alimentadas por energia renovável, sendo que 87% a 90% da energia elétrica da Alunorte e da Mineração Paragominas, respectivamente, vêm de fontes renováveis”, reforça o executivo.

ESG completo

Com participação em mais de 30 painéis e encontros ao longo da COP30, a Hydro viu no evento um espaço para reforçar que sustentabilidade envolve também impacto social, transparência e fortalecimento de economias locais. Nesse aspecto, um dos pilares apresentados pela companhia foi o Fundo Hydro, criado em 2019 por Hydro, Albras e Alunorte.

A iniciativa vem se consolidando como uma estrutura independente destinada a promover desenvolvimento territorial de longo prazo em Barcarena, no Pará. Em cinco anos, o fundo apoiou mais de 50 projetos e alcançou cerca de 100 mil pessoas, direta ou indiretamente, com mais de R$ 60 milhões investidos.

A lógica do fundo busca permitir que as próprias comunidades definam prioridades, formatos e escopos de projetos. Segundo a empresa, essa governança compartilhada garante maior aderência às necessidades locais e reforça o compromisso com inclusão e autonomia econômica.

O Fundo trabalha para ampliar oportunidades, reduzir desigualdades e fortalecer a autonomia das comunidades, estimulando iniciativas que promovem empreendedorismo, inclusão e cuidado com o meio ambiente. Essa abordagem procura garantir que o crescimento econômico da região não fique limitado à atividade industrial.

A Hydro também destacou avanços técnicos ligados à mineração. Um exemplo é a tecnologia Tailings Dry Backfill, aplicada na Mineração Paragominas, que permite secar o rejeito e devolvê-lo às cavas de onde o minério foi extraído. O processo já liberou cerca de 800 hectares antes reservados ao armazenamento permanente, abrindo espaço para reabilitação e reflorestamento.

A companhia ainda anunciou a parceria com a Wave Aluminium para desenvolver, na Alunorte, uma planta semi-industrial capaz de transformar resíduos de bauxita em ferro metálico de baixo carbono. O projeto, considerado pioneiro, integra a estratégia de economia circular e busca eliminar novas áreas de disposição até 2050, caso seja ampliado em escala industrial.

Legado para o Pará

O contexto amazônico, entretanto, ultrapassa o escopo industrial. Durante a COP30, a Hydro patrocinou iniciativas culturais como o Museu das Amazônias, concebido para valorizar a identidade regional, e contribuiu para a instalação permanente, em Belém, do Banco da Paz, criado pelo Centro Nobel da Paz em parceria com empresas norueguesas. A peça, feita com alumínio produzido pela Hydro cuja cadeia de valor começa no Pará, foi apresentada como símbolo do diálogo e da construção coletiva de soluções para a região.

Outra agenda que ganha tração pós-COP30 é a do turismo e da diplomacia climática. A confirmação de Belém como sede da II Semana do Clima da Amazônia, em 2026, resultado de um evento do Instituto Ethos em parceria com a Hydro, reforça a projeção institucional da região e tende a criar um ciclo permanente de atração de investimentos e debates internacionais.

Para a empresa, a visibilidade trazida pela conferência ampliou o interesse global em iniciativas ligadas a critérios ESG no Pará. A Hydro avalia que a exposição proporcionada pelo evento ajudou a reduzir assimetrias de informação e a evidenciar capacidades locais de implementação de projetos sustentáveis.

“Sediar a COP em Belém mudou a percepção global sobre a Amazônia, pois muito se fala sem conhecer. O conhecimento tende a gerar mais investimento e interesse pela preservação, elevando a atenção sobre como as cadeias produtivas locais se alinham à conservação”, destaca o executivo.

Na visão do executivo, o setor privado local também ganha relevância como vitrine de avanços já em curso na transição energética brasileira. A presença de projetos concretos, e não apenas projeções ou metas, teria contribuído para aumentar a confiança de fundos internacionais na solidez de parcerias no país.

Olhando para os próximos anos, a empresa prepara a implementação do Programa Corredor, criado em 2024, que conectará empresas, comunidades e organizações ao longo dos 244 km entre Paragominas e Barcarena. A iniciativa faz parte da estratégia de territorialização das ações socioambientais e teve seu primeiro edital lançado neste ciclo pós-COP30.

“A Hydro vai seguir avançando em prol de um futuro mais sustentável, com investimentos significativos em descarbonização e frentes sociais”, finaliza Anderson Baranov.

Fonte: Exame

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