Especialistas discutem a necessidade de preparar profissionais e hospitais para os impactos dos eventos extremos durante o ESG Summit
Secas, ondas de calor, queimadas e enchentes passaram a desafiar não apenas a infraestrutura das cidades e a economia, mas também as instituições de saúde. À medida que os eventos extremos ficam mais frequentes, hospitais, unidades básicas e profissionais da área precisam responder a novos padrões de adoecimento e incluir a adaptação climática às estratégias de prevenção e atendimento.
“A saúde deveria ser transversal”, afirmou Evangeline Araujo, diretora e fundadora do Instituto Ar, durante o ESG Summit, evento promovido pela Exame e realizado no dia 28 de maio, em São Paulo. Para ela, o tema ainda é tratado de forma isolada, quando deveria orientar decisões em áreas como infraestrutura, transporte, planejamento urbano, meio ambiente e políticas sociais. Isso significa considerar os impactos sobre a saúde da população em decisões que vão além dos serviços de atendimento.
Ela lembrou que a discussão ganhou força na COP30 com a apresentação do Plano de Ação em Saúde de Belém, uma iniciativa internacional voltada à relação entre mudanças climáticas e seus impactos na saúde humana. O documento propõe medidas para que os países fortaleçam seus sistemas de saúde e ampliem a capacidade de resposta aos efeitos dessa crise, especialmente entre as populações mais vulneráveis.
O debate contou, ainda, com a participação de Arlindo Gonzaga, médico e professor da Afya, e Daniele Beiriz Machado, líder da Coalizão Cardio da Beneficência Portuguesa de São Paulo.
Saúde planetária na grade curricular
Essa mudança de perspectiva começa a ganhar espaço na formação dos profissionais da área. Em 2025, as novas Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de Medicina e, em 2026, de Enfermagem passaram a incorporar o conceito de saúde planetária, com reflexões sobre sustentabilidade, clima, diversidade e vulnerabilidades sociais.
Para Gonzaga, no entanto, o desafio vai além da atualização de conteúdos. É preciso formar profissionais capazes de compreender que a saúde não pode ser dissociada do ambiente em que as pessoas vivem. “Não somos uma pessoa doente; somos uma pessoa doente no ambiente”, disse.
Em um país de dimensões continentais como o Brasil, ele explica que os currículos precisam combinar uma base comum com adequações às características locais. “Uma asma em São Paulo é diferente de uma asma em Rondônia.”
A preparação das equipes é apenas uma das frentes necessárias. Hospitais e redes públicas de atendimento também devem considerar as questões climáticas no planejamento de longo prazo.
Segundo Danielle, a Beneficência Portuguesa desenvolveu uma matriz de risco climático capaz de projetar, até 2100, fatores ambientais que podem afetar o funcionamento do pronto-socorro. A ferramenta permite prever, por exemplo, quais ocorrências podem acontecer em um cenário de seca ou calor extremos, e como o hospital deve se preparar.
A preocupação se refletiu na Coalizão Cardio, iniciativa criada em 2018 para o rastreamento precoce e o manejo adequado de Condições Crônicas Não Transmissíveis (CCNT), como hipertensão arterial, diabetes, obesidade e hipercolesterolemia.
Inspirado pelas discussões realizadas nas últimas conferências do clima, o grupo passou a analisar de que forma episódios severos, especialmente o calor e a poluição, podem agravar os riscos para pacientes cardiovasculares e aumentar a demanda por cuidados. Segundo Daniele, a ideia é revisitar processos sob essa perspectiva e fortalecer ações de governança e educação permanente dos funcionários.
Da formação às políticas públicas
Apesar dos avanços recentes, os especialistas ressaltaram que a adaptação das redes de saúde aos efeitos das mudanças climáticas ainda está em construção. O desafio envolve desde a preparação dos times e a atualização dos protocolos de atendimento até o fortalecimento de ações preventivas e a capacidade de resposta a eventos extremos. Para isso, será necessária uma atuação articulada entre diferentes setores, incluindo governos, organizações da sociedade civil e empresas.
Nesse processo, os profissionais de saúde têm um papel importante ao orientar pacientes sobre medidas de prevenção e cuidados diante de riscos cada vez mais frequentes, como ondas de calor, queimadas e poluição. Para Evangeline Araujo, porém, a mudança concreta depende de ações estruturais. “O que trará a maior transformação são as políticas públicas.”
Fonte: Exame


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