Apareceu uma máquina, um aplicativo, um programa, e logo se anuncia o fim de uma categoria inteira

De tempos em tempos volta a mesma pergunta, sempre com ar de novidade: tal profissão vai acabar? Apareceu uma máquina, um aplicativo, um programa, e logo se anuncia o fim de uma categoria inteira. A resposta de quem está dentro também é sempre a mesma, e tem um tom de quem já viu esse filme: relaxa, sempre disseram isso, e aqui estamos nós. As duas frases são tranquilizadoras. As duas erram o alvo.

Erram porque discutem no eixo errado. A pergunta é simplista, porque “vai acabar ou vai sobreviver?” serve a um mundo binário, e quase nada na vida se comporta assim. Uma profissão é três coisas ao mesmo tempo, e o debate público insiste em tratá-las como uma só. Há a função, que é aquilo que a sociedade precisa que seja feito, e costuma ser durável e às vezes até cresce. Há os postos de trabalho, relativos ao número de pessoas que vivem daquela função. Aqui é outra história. E há o tanto de trabalho humano que cada unidade de demanda exige, que é onde a coisa de fato muda. Confundir os três é o erro mais comum quando se fala de tecnologia e emprego.

Quando essas três coisas se separam, surge a situação que ninguém nomeia, na qual a profissão segue viva, em plena saúde como categoria e função, e mesmo assim sustenta uma fração das pessoas que sustentava antes. Ela não morre. Ela cabe em menos gente. Poucos fazem hoje o que muitos faziam ontem, e o serviço continua sendo entregue, às vezes em volume maior do que nunca.

É por isso que “continuamos aqui” é uma frase verdadeira e inútil. A sobrevivência da categoria não diz absolutamente nada sobre quantos sustentos ela ainda comporta. A placa permanece na porta, o nome continua na fachada, e os fundos, que tinham vinte pessoas, têm quatro. A instituição está viva, porém o emprego, nem tanto. Tomar a primeira como prova de que a segunda vai bem é o conforto que adia o problema real.

Justamente aqui é onde a mudança atual se separa das anteriores, e vale insistir nessa diferença. As ondas de automação que conhecíamos costumavam deslocar trabalho, não o eliminar. O caso clássico é o do caixa de banco. Quando o caixa eletrônico chegou, profetizou-se o fim do caixa humano, e o que aconteceu, por um bom tempo, foi o contrário, como cada agência ficou mais barata de operar, os bancos abriram mais agências, e o número de caixas chegou a crescer. A máquina assumiu uma tarefa e a pessoa migrou para outras. O computador, o telefone, a planilha entraram assim na vida de quase toda profissão, como ferramenta na mão do profissional, que passou a fazer mais e diferente. Ainda havia uma pessoa entre demanda e oferta.

A onda de agora não funciona desse jeito. Ela não coloca uma ferramenta na mão de quem atende, mas ela atende direto, cortando a pessoa do circuito. Você não vai mais ao caixa, e cada vez menos vai a um humano qualquer, já que o aplicativo resolve, o autoatendimento passa as compras, o chat responde, o algoritmo recomenda, a plataforma encontra. A demanda continua de pé, muitas vezes satisfeita com mais rapidez e a qualquer hora. O que mudou é que ela deixou de precisar passar por alguém. Antes, a máquina ficava entre o profissional e a tarefa. Agora ela fica entre o cliente e a resposta, e o profissional virou opcional. Não adianta torná-lo mais eficiente. Ele não é mais necessário. É verdade que surgem outras funções, alguém programa a plataforma, nem todas, alguém a mantém, mas surgem em menos gente, em outro lugar e exigindo outra pessoa. Dessa vez o trabalho que reaparece quase nunca reabsorve quem saiu.

Os exemplos estão por toda parte e dispensam o jargão. O aplicativo do banco no lugar do gerente. O caixa de autoatendimento no lugar do operador. O streaming no lugar do balconista da locadora. O mapa do celular no lugar do motorista que sabia a cidade de cor. A reserva on-line no lugar do agente de viagens. O rascunho gerado por inteligência artificial no lugar do iniciante que antes o redigia. Em nenhum desses casos o serviço sumiu. Sumiu a necessidade de uma pessoa entre você e ele. O volume da demanda cresce, entretanto o número de gente necessário para atendê-la, não.

Por isso a pergunta que se repete: vai acabar? é a pergunta errada, e quase sempre tem resposta tranquilizadora, já que não, praticamente nada acaba. As profissões resistem como rótulo, como função, como vitrine, como curiosidade. A pergunta honesta é outra, e é desconfortável: quantas pessoas essa atividade ainda consegue sustentar? E o que fazemos com aquelas que ela deixa de sustentar, justamente enquanto vai muito bem, obrigado?

Esse é o debate que evitamos quando nos prendemos à fantasia da extinção. Enquanto discutirmos se a profissão vai morrer, nunca olharemos para o que de fato está acontecendo, que é o fato de que ela está viva e cada vez mais estreita, recebendo menos gente do que despeja para fora. O problema nunca foi o fim. Foi a capacidade de absorção, e essa, sim, está encolhendo enquanto ninguém presta atenção.

E há uma razão para insistir nisso agora. Com a eleição se aproximando, vamos ouvir de novo as propostas sobre emprego, sobre gerar vagas, atrair investimento, qualificar o trabalhador, quase todas formuladas como se o único problema fosse a falta de crescimento. Mas a pergunta que de fato importa raramente sobe ao palanque. O que fazer quando a economia cresce, a demanda aumenta e, ainda assim, sobra cada vez menos lugar para gente? Esse é o debate que um ano eleitoral deveria forçar, e que quase sempre fica de fora. Enquanto discutirmos se vão criar empregos, e não que trabalho ainda restará para criar, estaremos elegendo respostas para uma pergunta que o mundo já parou de fazer.

Fonte: O Brasilianista

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