Mais do que divisão de bens, o pacto antenupcial tornou-se uma escolha consciente de casais modernos que valorizam autonomia, planejamento e vínculos duradouros

Pacto antenupcial como planejamento e não como desconfiança

Durante muito tempo, falar em pacto antenupcial era sinônimo de desconforto. Para muitos, sugerir um contrato antes do casamento parecia um gesto de desconfiança, algo que colocava o amor sob suspeita. Hoje, esse olhar mudou. Casais modernos, especialmente os mais jovens, começaram a compreender o pacto como ele realmente é: uma ferramenta de planejamento patrimonial e sucessório.

Em um tempo em que os relacionamentos são construídos com mais autonomia e menos idealização, o pacto antenupcial não afasta o amor; pelo contrário, ele o fortalece, ao permitir que o casal estabeleça regras claras sobre seu futuro econômico, seus limites e suas expectativas.

Separar bens não é separar vidas

Embora muitas vezes associado apenas à sucessão, o pacto antenupcial também é essencial para organizar com transparência os termos de um eventual divórcio. Ele permite que o casal, enquanto está em harmonia, defina de forma madura e consciente como será a condução patrimonial caso a relação termine.

Além disso, o pacto não deve ser visto como instrumento de desconfiança, mas sim como ferramenta preventiva, especialmente em cenários envolvendo riscos financeiros ou empresariais. Muitos empreendedores já não aceitam sócios casados sob o regime de comunhão parcial de bens, justamente para evitar que, em caso de dívidas, o cônjuge passe a responder solidariamente. Afinal, quando um CPF afunda, o do outro pode afundar junto – e isso independe de amor ou lealdade, trata-se de proteção mútua.

A escolha pelo regime da separação total de bens não significa frieza ou egoísmo, mas sim respeito à trajetória individual de cada cônjuge, principalmente quando um ou ambos já possuem patrimônio constituído, empresas, heranças ou responsabilidades familiares anteriores.

Em muitos casos, esse regime é adotado por casais que se amam profundamente, mas que desejam manter sua organização financeira separada por questões práticas e de proteção futura. É um pacto de responsabilidade, não de distanciamento.

O pacto como instrumento de proteção do cônjuge sobrevivente

Poucos sabem, mas o pacto pode conter cláusulas importantes de proteção para quem ficar. Por exemplo: garantir o direito real de habitação para que o cônjuge sobrevivente possa permanecer no imóvel comum, sem risco de ser questionado por herdeiros.

Também é possível renunciar à herança recíproca nos casos em que ambos já têm filhos de relações anteriores, por exemplo. Ainda que o tema gere discussão doutrinária, a possibilidade de declarar essa intenção no pacto traz clareza e pode ser um passo à frente em termos de organização sucessória.

Planejamento não é previsão de fim, é prevenção de conflito

O pacto antenupcial deve ser visto como se vê um planejamento de negócio: quem entra em uma sociedade com outra pessoa precisa saber quais são as regras, os limites, os deveres e os direitos. Isso não significa prever o fim, mas prevenir conflitos, sobretudo quando o amor está em seu momento mais claro: no início.

Como advogada atuante em Direito de Família e Planejamento Sucessório, vejo cada vez mais casais tratando do pacto com naturalidade, seriedade e maturidade. O que antes parecia frio, hoje se revela como um gesto de respeito e segurança emocional.

O pacto antenupcial é sobre liberdade, transparência e cuidado com o outro. Um contrato que, longe de ferir o amor, pode ser a sua mais elegante declaração.

Fonte: Migalhas

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