Entre críticas, novas exigências e crises globais, práticas sustentáveis avançam como estratégia de valor, resiliência e governança

O movimento anti-ESG de 2025 não foi “suficiente para deter um movimento mundial que já está profundamente enraizado na governança corporativa, na regulamentação global e na estratégia central dos negócios”, analisa o Corporate Governance Institute sobre o ESG (boas práticas ambientais, sociais e de governança).

Mas quais elementos evitaram o aprofundamento da ruptura do ESG em 2025 diante do adensamento das críticas? Alguns fatores contribuíram para esse resultado, porque colocaram à prova a assertividade trazida pelo ESG: i) os conflitos entre a narrativa negativa e os benefícios gerados, ii) incrementos e mudanças na regulação ESG em todo o mundo iii) e o avanço das crises geopolíticas e climáticas, que geram incertezas. Em 2026, esses fatores continuarão se destacando na trilha do ESG e marcando o ano como sendo de transição para a consolidação da sustentabilidade.

A agressiva campanha de resistência ao ESG em 2025 não surtiu o efeito esperado por seus críticos, uma vez que, enquanto estratégia corporativa, o ESG vem sendo capaz de agregar valor às empresas, ampliar os lucros e a reputação positiva e consolidar o avanço da sustentabilidade; enquanto as críticas não tiveram eco entre os stakeholders.

Prova disso é a pesquisa da EcoVadis 2025 US Business Sustainability Landscape Outlook com 400 executivos de empresas americanas. Para 48% dos respondentes, os investimentos em sustentabilidade continuaram inalterados e 31% disseram que estavam investindo mais, mas divulgando menos.

Para medir a contribuição do ESG à sustentabilidade corporativa basta consultar as normas da Sustainability Accounting Standards Board (SASB) para chegar a um cenário otimista. Inicialmente, a SASB criou o “Mapa da Materialidade”, evoluindo para o “Localizador de Materialidade”, um sistema de classificação independente, de fácil acesso, dotado de categorias de sustentabilidades agregadas com dezenas de setores produtivos, divididas em cinco dimensões: meio ambiente, capital social, capital humano, modelo de negócios e inovação, liderança e governança.

Uma das Sete Magníficas, por exemplo, alinha seus relatórios ESG com as normas SASB para que os stakeholders tenham informações detalhadas e parametrizadas sobre suas práticas ambientais, sociais e de governança.

Se no plano macro há registro de vitórias, elas também se apresentam no cenário micro. É o caso do município de Pindamonhangaba, interior de São Paulo, que alcançou no final de 2025 um marco histórico ao se tornar a primeira cidade do mundo, com até 500 mil habitantes, a conquistar a certificação ISO 37125 – ESG, uma das mais relevantes normas globais voltadas à governança, meio ambiente e perspectiva social. Com o reconhecimento, o município passa a integrar um pequeno grupo de cidades que adotam padrões internacionais de sustentabilidade administrativa.

Do ponto de vista prático, esse tipo de certificação só acontece quando há um trabalho de consultoria estruturado para se levantar e qualificar as métricas exigidas pela norma, organizar evidências, implantar rotinas de governança de dados e definir metas anuais vinculadas aos indicadores ESG, como elevar transparência e participação social, aumentar eficiência administrativa e fortalecer resultados ambientais e sociais.

Ao adotar a ABNT NBR ISO 37125 (ISO 37125:2024), a cidade passa a ter um “perfil ESG” padronizado por indicadores numéricos, comparável internacionalmente, com monitoramento e melhoria contínua, o que tende a ampliar credibilidade institucional, atrair investimentos e parcerias, orientar políticas públicas baseadas em evidências e aumentar a confiança do cidadão na gestão.

Além de conquistas estratégicas, avanços das exigências regulatórias do ESG devem ser sentidos efetivamente em 2026, ano em que passa a ser obrigatório no Brasil a adoção das normas internacionais de sustentabilidade S1 (riscos e oportunidades que podem impactar o caixa das empresas) e S2 (dados relacionados ao clima) da IFRS, normas internacionais de relatório financeiro da International Sustainability Standards Board (ISSB) para as corporações divulgarem seus dados financeiros estruturados e alinhados à sustentabilidade e ao clima, impactos sociais e governança, conforme Resolução 193 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), valendo para as empresas de capital aberto, fundos de investimentos e securitizadoras.

Contudo, algumas empresas já se anteciparam e estão divulgando relatórios voluntários desde 2025, fortalecendo sua reputação junto aos stakeholders e ampliando suas possibilidades de acesso a financiamentos verdes.

O que difere as normas IFRS de outras estruturas contábeis consiste no fato de que elas não estão assentadas em regras, mas em princípios, ou seja, possuem diretrizes abertas. Para cumprir a IFRS S1, a corporação deve divulgar informações sobre riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade e o que afeta seus negócios da perspectiva financeira, custo de capital de curto, médio e longo prazos.

Esses dados precisam seguir requisitos de divulgação, incluindo processo e controle de governança, estratégias para gerenciamento de riscos e oportunidades; assim como a identificação, avaliação, priorização, monitoramento dos dados e desempenho voltado à sustentabilidade.

A mudança regulatória, contudo, não para. Na União Europeia, por exemplo, depois do chamado pacote de simplificação da UE (Omnibus I), o ano de 2026 pode ser considerado o ano de transição para as empresas reportarem seus relatórios de sustentabilidade.

A Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) recaia agora somente sobre as empresas do Grupo 1, com mais de 1.000 funcionários e faturamento líquido anual de 450 milhões de euros. A União Europeia reduziu em 80% o total de empresas que teriam obrigações legais a cumprir com a CSDR, que ganhou padrões normativos mais simplificados, ampliando os prazos para empresas dos Grupos 2 e 3 e para as corporações que não são europeias, mas atuam no continente europeu para iniciar seus reportes a partir de 2027.

Assim como a rejeição e a regulação, as crises geopolíticas constituem outra prova de fogo ao ESG em 2026. Conflitos armados, tensões comerciais e instabilidade política geram impactos profundos na economia global e na estabilidade das empresas, causando instabilidades nas cadeias de suprimento de energia e recursos naturais; trazendo deslocamentos populacionais e instabilidade às cadeias de fornecimentos e garantias ao trabalho digno.

Temos um exemplo próximo com a ampliação da crise entre EUA e Venezuela, que tem aumentado o fluxo de imigrantes venezuelanos pela fronteira brasileira, que deve trazer impactos, mesmo que indiretos.

No mesmo patamar de desafios ESG envolvendo as crises geopolíticas estão as mudanças climáticas. Esses fenômenos não apenas aumentam os custos operacionais, mas também geram diferentes tipos de riscos, exigindo das organizações uma postura proativa. No final de dezembro, as empresas do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil enfrentaram temperaturas acima do padrão para essa época do ano.

A sobrecarga térmica impacta a saúde dos funcionários e os negócios, exigindo um foco na adaptação climática. Exige, ainda, novas estratégias das empresas, com adoção de medidas de adaptação e mitigação, responsabilidade socioambiental e infraestrutura sustentável alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento sustentável (ODS), entre outras medidas.

Em um horizonte marcado por crises e incertezas, boas práticas de governança, ambientais e sociais tornam-se um porto seguro, essencial para qualquer negócio, pois é necessário demonstrar resiliência, confiança e criatividade diante de um contexto global cada vez mais dinâmico. Em 2026, o ESG continuará a ser uma ferramenta estratégica para as empresas enfrentarem desafios geopolíticos e climáticos, gerando valor a longo prazo, reportando dados com fidelidade, atraindo investidores, rebatendo críticas e conquistando stakeholders, cada dia mais conscientes.

Fonte: Jota

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