Vivemos sob o domínio da urgência. A economia digital exige respostas imediatas e operações realizadas em segundos. Nesse cenário, a tokenização imobiliária ganhou protagonismo como símbolo de eficiência e inovação. Entretanto, à medida que nos aproximamos de 2026, emerge um movimento central: a maturidade do setor dependerá menos da velocidade tecnológica e mais da solidez institucional que sustenta o direito de propriedade.
Nos últimos dois anos, o mercado avançou significativamente. As emissões reguladas já superam R$ 1,3 bilhão, e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) iniciou a revisão da Resolução 88, buscando acomodar operações maiores e mais sofisticadas. Tudo isso sinaliza um movimento consistente de expansão regulada, com maior proximidade entre inovação e atuação dos órgãos reguladores.
Ao mesmo tempo, o debate jurídico ganhou corpo, especialmente após a tentativa de criação de um “sistema paralelo” de tokens imobiliários, posteriormente suspenso pela Justiça. O episódio reforçou outro sinal importante para 2026: qualquer avanço relevante no ambiente digital dependerá da aderência às competências constitucionais do registro imobiliário.
A disputa entre o Conselho Federal de Corretores de Imóveis (Cofeci) e o Operador Nacional do Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis (ONR) não foi apenas um embate corporativo. Ela antecipou alguns dos vetores que devem moldar o próximo ano, entre eles a consolidação da percepção de que a blockchain, por si só, não resolve o problema da confiança. Um token emitido à margem da matrícula não protege o investidor, não garante lastro e não substitui o sistema responsável por verificar a legitimidade da titularidade. A tecnologia registra, mas não certifica, e essa distinção deve orientar a evolução do setor em 2026.
Segurança para o mercado digital
Essa leitura abre caminho para outro movimento relevante: o papel crescente dos registradores e do ONR como instâncias de segurança para o mercado digital. Ao contrário da percepção de burocracia atribuída ao registro, o movimento recente mostra que ele passa a ser compreendido como infraestrutura essencial para que a tokenização ganhe escala, viabilidade econômica e segurança jurídica. A própria estrutura de custeio do registro — baseada em emolumentos — opera, na prática, como um mecanismo coletivo de mitigação de risco: uma espécie de “seguro social” do crédito, que sustenta a camada de confiança necessária para transações que dependem de lastro imobiliário.
Além disso, o esforço de integração digital entre APIs e padronização indica que o ecossistema registral está se posicionando como fonte de dados confiáveis. Ao oferecer informações estruturadas e interoperáveis, esse ecossistema cria condições para que políticas públicas e decisões privadas sejam orientadas por dados consistentes sobre o estoque imobiliário nacional. Esse movimento fortalece a preservação digital de documentos, títulos e registros, ao mesmo tempo em que assegura a soberania informacional de entes públicos e privados num ambiente cada vez mais dependente de dados verificáveis.
No campo da infraestrutura financeira, o projeto Drex entrou em fase de revisão. O desligamento da plataforma inicial de testes e o anúncio de uma reformulação arquitetônica dão sinais de que o Banco Central continuará explorando a tokenização de ativos para operações de crédito e garantia, mas o desenho final ainda está em construção. É cedo para previsões categóricas, mas tudo indica que 2026 será um ano de diálogo técnico, não de implementação massiva. O ponto firme, entretanto, permanece: qualquer camada pública programável que envolva imóveis tokenizados precisará se articular com o sistema registral para evitar riscos sistêmicos.
Qualidade do ecossistema da tokenização imobiliária
Esses movimentos reforçam a percepção de que a tokenização não deve ser vista como um fim, mas como instrumento. O objetivo não é digitalizar a propriedade a qualquer custo, e sim liberar liquidez, reduzir fricções operacionais e ampliar o acesso ao crédito, sem sacrificar a segurança jurídica que protege investidores e dá estabilidade ao mercado.
Em síntese, 2026 tende a ser o ano em que a tokenização imobiliária será medida menos pelos números de captação e mais pela qualidade institucional do ecossistema que a suporta. Se o país avançar na direção de um mercado digital sustentado pela publicidade registral, pela proteção ao terceiro de boa-fé, pela preservação digital de dados e por padrões interoperáveis, a tokenização entrará em fase de consolidação. Nesse ambiente, a soberania informacional de entes públicos e privados permitirá decisões estratégicas mais precisas e políticas públicas mais bem orientadas. Ao mesmo tempo, o modelo de emolumentos reafirma sua função social ao sustentar a infraestrutura de confiança que reduz riscos e favorece o crédito. É dessa combinação, entre tecnologia eficiente e instituições fortes, que a tokenização encontrará seu verdadeiro espaço no mercado brasileiro.
Fonte: Conjur


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