Fim da obrigatoriedade de relatórios pela CVM traz riscos estruturais e exige comunicação transparente
As empresas e o ESG — boas práticas ambientais, sociais e de governança — vivem uma situação semelhante à do pêndulo de Foucault. Nesse experimento, realizado há mais de 170 anos, no Panteão de Paris, o físico francês Léon Foucault fixou um pêndulo (esfera metálica) em um cabo de aço no centro da cúpula do edifício, conseguindo demonstrar que a Terra gira em torno de seu próprio eixo.
Embora os presentes tivessem a sensação de que o pêndulo oscilasse, na verdade, era o movimento da Terra que promovia esse efeito. Portanto, quem se restringe a ver apenas o movimento do pêndulo adota um ponto de vista engessado, incapaz de reconhecer que a realidade ao redor tem o condão de ser transformadora.
O ESG deveria ser tratado pelas companhias como uma inserção sistêmica dos fatores ambientais, sociais e de governança, que gira em seu próprio eixo, sem deixar de abarcar novas realidades. No entanto, muitas empresas ainda compreendem esse modelo estratégico a partir de fundamentações rígidas de formulação e controle, obtendo, assim, uma falsa impressão de estabilidade ou até estagnação.
Dentro dessa perspectiva metafórica do pêndulo de Foucault pode ser inclusa a decisão recente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que surpreendeu o mercado de capitais, ao retirar a obrigatoriedade de divulgação de informações financeiras voltadas à sustentabilidade e ao clima para as empresas brasileiras listadas em bolsa, nos padrões IFRS S1 e S2, conforme a Resolução CVM 244/2026¹, que alterou a Resolução CVM 193/2023, passando a divulgação a ser voluntária, a partir deste ano. O fim da obrigação de reporte das empresas abertas gerou muitas críticas de entidades de diferentes setores.
Para entidades como a Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda, a Resolução CVM 244 promoveu um recuo, uma vez que o Brasil foi o primeiro país do mundo a regular a adoção do ISSB (International Sustainability Standards Board), para reportes ESG. Ao reduzir as exigências ESG, o país pode prejudicar empresas brasileiras, que se distanciam das regulações internacionais e ficam sujeitas ao risco de greenwashing, isto é, da adoção de falsos comprometimentos sustentáveis.
A ausência de relatórios obrigatórios de sustentabilidade alinhados aos princípios ESG tem ampliado lacunas relevantes na compreensão sobre a conformidade e a maturidade sustentável das organizações. Em um cenário em que empresas operam dentro de modelos integrativos, a falta desse tipo de reporte não representa apenas um vazio documental, mas um risco estrutural que afeta múltiplas dimensões institucionais, aprisionando organizações e dificultando a interpretação do movimento análogo e ilusório do pêndulo de Foucault.
Esses modelos integrativos exigem que a companhia articule, de forma coerente, a conformidade regulatória, a governança corporativa, a arquitetura de dados, as expectativas dos stakeholders e as transformações estratégicas. Quando o relatório ESG não é obrigatório, perde-se a capacidade de avaliar com precisão como esses elementos se conectam e se retroalimentam.
A transparência deixa de ser um pilar e passa a ser uma escolha, o que fragiliza a credibilidade das informações divulgadas e compromete a comparabilidade entre empresas e setores.
Além disso, a ausência de padronização dificulta a construção de uma arquitetura de dados ESG robusta, cada vez mais necessária para sustentar análises consistentes sobre riscos socioambientais, desempenho climático e impactos sociais. Sem dados estruturados, as organizações ficam vulneráveis a interpretações fragmentadas, dificultando a tomada de decisão estratégica e a antecipação de riscos regulatórios.
Outro ponto crítico é a crescente pressão dos stakeholders — investidores, consumidores, reguladores e sociedade civil etc. — que demandam, cada vez mais, evidências concretas de responsabilidade corporativa. Sem relatórios ESG mandatórios, as empresas podem adotar narrativas voluntárias que não necessariamente refletem sua realidade operacional, abrindo espaço para a erosão da confiança pública e seus impactos.
É nesse ponto que a metáfora precisa deslocar o olhar: se o pêndulo de Foucault revela que o mundo se move mesmo quando parecemos parados, o pêndulo de Newton nos lembra que nenhum movimento institucional acontece de forma isolada. Para um adequado funcionamento, é preciso sopesar e equacionar muitos pesos, forças e princípios.
Retorna-se, assim, às forças motrizes iniciais deste texto: a convergência entre discurso e resultado prático em ESG. E esse ponto de convergência se dá, sobretudo, por meio da comunicação: relatórios objetivos, claros, verificáveis e verdadeiros.
A busca por informações ESG é retrato da urgência e das profundas transformações pelas quais atravessa o mundo contemporâneo, mas expressa também as possibilidades, oportunidades e perspectivas desse novo mundo que se avizinha. No objeto de Newton, os pêndulos possuem mesmo tamanho e mesma massa, estão presos a uma única estrutura e transferem energia em um movimento preciso.
Em uma leitura comparativa e metafórica, esses cinco pêndulos poderiam ser as metas, o desempenho, o discurso, os relatórios e a própria sustentabilidade, todos amarrados a uma organização com propósito claro. Quando há equilíbrio, a energia circula. Quando há ruído, omissão ou desalinhamento entre o que se declara e o que se pratica, o movimento perde força.
Por isso, comunicar ESG não é apenas divulgar resultados positivos, mas organizar pesos, evidências e responsabilidades em uma linguagem capaz de sustentar confiança. A comunicação é a estrutura que impede que os pêndulos se choquem de forma desordenada.
É ela que traduz dados em compreensão, compromissos em rastreabilidade e sustentabilidade em prática institucional. Sem comunicação clara, o ESG se converte em oscilação vazia; com comunicação responsável, transforma-se em direção, coerência e valor público.
Ao ter dificuldade em visualizar e compreender a estabilidade aparente do pêndulo, muitas empresas respondem lentamente às mudanças em governança, arquitetura de dados, modelos de compliance e comunicação institucional. A correção entre ESG e o pêndulo corporativo passa por alinhar o plano de oscilação interno com a nova rotação do contexto, divisando novos horizontes: fortalecimento da governança, estruturação de dados confiáveis, institucionalização de relatórios comparáveis e integração da sustentabilidade à estratégia de longo prazo.
Mas esse alinhamento só se completa quando a comunicação deixa de ser acessória e passa a ocupar o centro da engrenagem. Afinal, não basta que a empresa se mova; é preciso que esse movimento possa ser compreendido, auditado, comparado e legitimado. Entre o discurso e o resultado, entre o compromisso e a evidência, entre a intenção e a prática, está a comunicação como força de equilíbrio. É ela que permite que o ESG deixe de ser promessa pendular e se converta em confiança pública, inovação, resiliência e credibilidade corporativa.
¹ https://conteudo.cvm.gov.br/export/sites/cvm/legislacao/resolucoes/anexos/200/resol244.pdf
² https://link.springer.com/article/10.1007/s43615-025-00516-4
³ https://ksdy50.com/economia-de-california-crece-mas-que-la-de-todo-estados-unidos/
Fonte: Jota


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