No início do século XX, o magnata norte-americano John D. Rockefeller já se preocupava menos com a expansão do seu império petroleiro e mais com o que viria depois
No início do século XX, o magnata norte-americano John D. Rockefeller já se preocupava menos com a expansão do seu império petroleiro e mais com o que viria depois. Não por acaso, foi nesse momento que sua atuação filantrópica ganhou escala.
Mais de um século depois, essa preocupação não apenas permanece, como ganha novas camadas de complexidade.
Vivemos hoje o que vem sendo descrito na literatura econômica como a maior transferência de riqueza da história. Nas próximas décadas, cerca de 84 trilhões de dólares devem mudar de mãos — seja entre gerações, seja passando de cônjuge para cônjuge. O número — que aparece no UBS Global Wealth Report de 2025 — é expressivo, mas talvez o principal ponto de atenção esteja menos no volume e mais nas tendências que acompanham essa transição.
Como planejador patrimonial há quase duas décadas, tenho acompanhado a evolução no perfil das famílias. Outro estudo recente do UBS, o Billionaire Ambitions Report, ajuda a dar forma a essas transformações, especialmente quando falamos das famílias mais bem-sucedidas do mundo. Segundo o relatório, entre as principais tendências estão a maior mobilidade internacional, o aumento da longevidade e uma mudança relevante na relação das novas gerações com o legado. Em grande medida, essas dinâmicas confirmam alguns movimentos que já vemos na prática, mas também revelam que muitos dos pressupostos tradicionalmente adotados no mercado já não dão conta da complexidade atual.
Sobre o ponto da mobilidade, o material releva que 36% dos bilionários no mundo já se mudaram de país pelo menos uma vez, e um décimo deles considera se mudar no futuro próximo. Embora aspectos fiscais façam parte da equação, fatores como qualidade de vida, segurança e estabilidade institucional estão entre os principais motivadores dessas mudanças.
Apesar de não ser uma tendência tão forte entre os brasileiros, esse processo tem sido experenciado pelos mais jovens. Ou seja, as famílias bilionárias estão mais propensas a investir e ter membros domiciliados em outras jurisdições e, a partir daí, precisam endereçar questões indiscutivelmente relevantes: Como o imposto de renda incidirá sobre os ativos nesta nova jurisdição? Quais os impostos incidentes em doações ou sucessões? Quais as regras sucessórias e de regime de bens aplicáveis? Além disso, a existência de bens offshore ou de um membro familiar morando fora também impõe outros desafios, exigindo diferentes veículos sucessórios para acomodar essa realidade, como testamentos internacionais, Trusts, fundações e/ou Joint Tenancy with rights of survivorships.
Outro vetor importante é a longevidade. Segundo o relatório, 44% dos entrevistados esperam viver significativamente mais do que há 10 anos. Gerações mais longevas implicam na convivência de três, e às vezes quatro, gerações simultaneamente. O que aumenta bastante a possibilidade de conflitos. Diferentes gerações tendem a ter visões distintas sobre risco, liquidez, propósito do patrimônio e até sobre o papel da família em relação aos seus negócios ou mesmo em atividades filantrópicas. Nesse contexto, estruturas de governança familiar — como protocolos e estatutos previamente estabelecidos — desempenham um papel central na organização dessas relações e na prevenção de conflitos.
Por fim, o estudo observa uma mudança na forma como as novas gerações se conectam com o legado familiar. Durante muito tempo, prevaleceu a expectativa de continuidade direta dos negócios pelos descendentes. Hoje, esse modelo parece menos dominante. Muitos fundadores passaram a valorizar a construção de trajetórias mais independentes para os seus filhos, ainda que isso implique uma relação diferente com o patrimônio do patriarca ou matriarca (aliás, talvez os roteiros de filmes e seriados terão de ser repensados daqui pra frente, né?).
Nesse cenário em que os filhos não serão mais executivos à frente das operações, as famílias são pressionadas a treinar seus sucessores para o papel de acionistas. Isso exige muito mais do que presença em reuniões: é preciso saber interpretar balanços, conhecer a fundo o setor em que a empresa atua, ter uma boa noção de aspectos legais e tributários e, sobretudo, desenvolver repertório sobre temas que já moldam a nossa sociedade e a própria reputação das empresas, como questões ambientais e o impacto da inteligência artificial, por exemplo.
Também é fundamental que o herdeiro tenha opinião própria nas deliberações (como já dizia o ditado, “o olho do dono é que engorda o boi”) e uma boa compreensão de cenários, caso contrário, corre o risco de abrir espaço para uma dependência excessiva de conselheiros, cujas recomendações nem sempre refletem as visões da família para os negócios. Nessa linha, cresce também o papel de estruturas como os multi-family offices, que ajudam a organizar essa complexidade, a capacitar os herdeiros e a dar suporte à tomada de decisão.
Em resumo, tudo indica que teremos famílias mais longevas, com múltiplas gerações convivendo e herdeiros redomiciliados e mais “desgarrados” dos negócios. No planejamento patrimonial, isso se traduz em complexidade e em uma maior necessidade de governança familiar e capacitação. O pano de fundo também inclui um ambiente global mais dinâmico, com incertezas geopolíticas, avanços tecnológicos acelerados e mudanças sociais relevantes. É claro que nenhum desses fatores é isoladamente novo, mas essa combinação, somada à magnitude da transferência de riqueza em curso, cria um cenário particularmente desafiador.
Ao longo do tempo, a experiência mostra que os momentos de maior risco para grandes patrimônios não estão somente nos ciclos de mercado, mas também nas transições — entre países, entre estruturas e, principalmente, entre gerações. É justamente aí que a qualidade do planejamento e do diálogo se tornam mais determinantes — e onde muitos dos mitos que ainda cercam a sucessão patrimonial começam, finalmente, a ser testados pela realidade.
Fonte: Valor Investe


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