A diferença de conduzir conversas sobre divórcio, incapacidade civil e sucessão está na abordagem; não é preciso começar pela parte mais desconfortável da conversa, mas ela não deve ser evitada indefinidamente
Recentemente, recebi um cliente que demorou bastante para agendar uma reunião. Logo no início, foi direto ao ponto: não se sentia confortável para discutir o que aconteceria com seu patrimônio depois que ele não estivesse mais aqui. Esse tipo de reação é mais comum do que se imagina. No cotidiano do planejamento patrimonial, há três tipos de conversa que muitas pessoas preferem evitar: potencial divórcio, falecimento e uma incapacidade hipotética. Somos treinados para identificar cenários adversos e propor estruturas jurídicas capazes de mitigar riscos e preservar patrimônio.
Sob esse ângulo, poderíamos até ser vistos como arautos de tragédias. Mas há uma outra forma, mais construtiva, de enxergar o tema. O planejamento sucessório é, antes de tudo, um exercício de cuidado com aqueles que permanecerão. Não precisa ser uma conversa pesada ou carregada. Tampouco exige, como ponto de partida, instrumentos complexos como testamentos, trusts ou protocolos familiares. Em muitos casos, medidas simples já promovem melhorias substanciais. Afinal, uma das primeiras perguntas que surgem após um falecimento é bastante pragmática: “o que fazer agora?”.
A realidade das famílias ajuda a entender essa angústia. É comum que casais estabeleçam, ao longo dos anos, uma divisão tácita de responsabilidades. Um se ocupa da dinâmica interna da casa (compras, manutenção, rotina dos filhos), enquanto o outro assume a interlocução com bancos, advogados, contadores e decisões patrimoniais mais amplas. Quando este último falece, aquele que fica frequentemente se vê sem referências básicas: quanto há em conta? Em quais instituições? Quem são os profissionais de confiança? Onde estão documentos essenciais, como escrituras e contratos? Qual é a senha do cofre, físico ou digital?
Por isso, costumo reforçar a importância da criação do que chamo de “manual do dia seguinte”. O formato em si é irrelevante; pode ser um caderno, um formulário ou até um documento digital. O que importa é reunir informações essenciais sobre ativos, contatos importantes e orientações mínimas para os primeiros passos. Em tempos de digitalização, isso pode incluir, com as devidas cautelas, credenciais de acesso.
Outro ponto crítico é a liquidez imediata. Em muitas famílias, uma única pessoa desempenha o papel de principal provedora, o chamado breadwinner. Nessas situações, a ausência repentina levanta uma questão inevitável: como manter o pagamento das despesas correntes? O problema é que, juridicamente, a transmissão do patrimônio depende de inventário, procedimento que pode levar semanas ou meses; especialmente se houver conflitos. Cria-se, assim, um descompasso entre a urgência financeira da família e a burocracia necessária à transferência formal dos bens.
Daí a importância de estruturar mecanismos que garantam acesso rápido a recursos. Instrumentos como planos de previdência privada e seguros de vida, por exemplo, permitem a indicação prévia de beneficiários, com pagamento direto e fora do inventário, garantindo liquidez imediata. Além disso, podem ser estruturados para prover renda contínua por prazo determinado ou até de maneira vitalícia, funcionando como um colchão financeiro nos momentos de maior vulnerabilidade.
Outra alternativa possível é a manutenção de contas em regime de cotitularidade. Em alguns casos, instituições financeiras permitem que o titular remanescente continue movimentando os recursos após o falecimento do outro. Porém essa é uma prática que não tem uma disciplina legal uniforme, variando conforme o entendimento de cada banco. Além disso, os valores envolvidos aqui serão posteriormente considerados no âmbito do inventário para fins de partilha, por isso, sua adoção deve ser avaliada com assessoria jurídica adequada.
Com esses dois pilares – o “manual do dia seguinte” e a provisão de liquidez imediata – já é possível reduzir significativamente o nível de desorganização e insegurança enfrentado pela família. E tudo isso sem necessariamente adentrar, de início, os aspectos mais técnicos ou sensíveis do planejamento sucessório.
Da minha parte, continuo conduzindo as conversas sobre divórcio, incapacidade civil e sucessão — até porque lidar com cenários difíceis permanece essencial ao nosso papel. A diferença está na abordagem: não é preciso começar pela parte mais desconfortável da conversa, mas ela não deve ser evitada indefinidamente. Cabe a nós, profissionais, conduzir esse diálogo com empatia, clareza e, sempre que o momento permitir, alguma dose leveza e bom humor.
Quanto àquele cliente resistente do início desta história, ao final da reunião, saiu satisfeito. E, arrisco dizer, sua família colherá os frutos dessa decisão no futuro.
Fonte: Valor Investe


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