A nacionalização da ISO IWA 48:2024 oferece ao mercado brasileiro uma estrutura integrada para transformar compromissos ESG em governança, evidências e resultados, alinhados ao Programa ESG20+
O debate empresarial sobre ESG ingressa em uma etapa mais exigente no Brasil.
Durante anos, parcela relevante do mercado concentrou-se em compreender o significado das dimensões ambiental, social e de governança, formular políticas institucionais, assumir compromissos públicos e produzir relatórios de sustentabilidade. Esse movimento foi importante para ampliar a compreensão do tema e inseri-lo nas agendas públicas e corporativas. Já não é, contudo, suficiente.
A questão que agora se impõe é mais concreta: Como transformar princípios ESG em sistema organizacional, decisões verificáveis, responsabilidades definidas, indicadores consistentes e resultados demonstráveis?
É nesse contexto que ganha especial relevância a publicação da ABNT ISO IWA 48:2026 – Estrutura para implementação de princípios ambientais, sociais e de governança (ESG), recentemente anunciada nos canais oficiais de comunicação da Associação Brasileira de Normas Técnicas.
A primeira edição brasileira, indicada na publicação da ABNT com data de 13 de julho de 2026, nacionaliza a ISO IWA 48:2024, documento internacional publicado pela International Organization for Standardization em novembro de 2024. A edição internacional foi concebida como uma estrutura de alto nível destinada a orientar organizações de todos os portes, setores e localizações na implementação e incorporação dos princípios ESG à cultura, à estratégia, à gestão do desempenho, à mensuração e ao relato.
A chegada da versão brasileira representa mais do que a disponibilização, em âmbito nacional, de um documento internacional. Ela acrescenta uma nova peça à arquitetura técnica que vem sendo construída no país, particularmente em diálogo com a família ABNT PR 2030, e cria condições para que o ESG deixe de ser tratado como um conjunto difuso de intenções e passe a ser compreendido como disciplina estruturada de gestão.
Da participação brasileira à adoção nacional
A relação da ABNT com a IWA 48 não começou em 2026.
A entidade brasileira participou diretamente do processo internacional de desenvolvimento do documento, ao lado do British Standards Institution, do Reino Unido, e do Standards Council of Canada. Segundo a ISO, mais de 1.300 participantes, provenientes de 128 países, contribuíram para sua elaboração.
O próprio texto internacional registra que a IWA 48 foi aprovada em workshops virtuais organizados conjuntamente pela ABNT, pelo BSI e pelo SCC, realizados em julho e outubro de 2024. A participação brasileira, portanto, não se limitou à incorporação posterior de um referencial desenvolvido no exterior. A ABNT integrou sua formação desde a origem.
Essa trajetória produz uma sequência institucional relevante: em 2024, a elaboração e a publicação internacional da ISO IWA 48:2024; em 2026, sua adoção nacional como ABNT ISO IWA 48:2026; e, paralelamente, sua articulação progressiva com a experiência brasileira desenvolvida por meio da família ABNT PR 2030.
O Brasil, nesse sentido, não aparece apenas como destinatário de uma agenda normativa global. Participa da elaboração do referencial e passa agora a incorporá-lo formalmente ao seu ambiente técnico nacional.
O que a IWA 48 efetivamente propõe
A relevância da IWA 48 decorre, em primeiro lugar, de uma afirmação conceitual simples, mas de profundas consequências: ESG não é apenas relato.
O documento reconhece a importância crescente das divulgações ambientais, sociais e de governança, mas desloca o centro do debate para a implementação. Relatórios confiáveis não surgem de boas técnicas de redação, de design ou de comunicação institucional. Dependem de uma estrutura anterior, formada por governança, liderança, cultura, integridade, identificação de impactos, gestão de riscos e oportunidades, materialidade, engajamento de partes interessadas, dados, indicadores, controles, verificação, asseguração e melhoria contínua.
A IWA 48 foi desenvolvida para funcionar como estrutura integradora. Seu propósito é auxiliar organizações a inserir o ESG no núcleo de suas atividades e, a partir disso, produzir informações mais consistentes, comparáveis e confiáveis.
Também é importante delimitar corretamente o alcance do documento. A IWA 48 é complementar e interoperável com frameworks voluntários e regulatórios existentes. Pode apoiar organizações que utilizem, por exemplo, os padrões IFRS S1 e IFRS S2, desenvolvidos pelo ISSB, ou os European Sustainability Reporting Standards. Não constitui, porém, um framework autônomo de reporte ESG.
Essa distinção evita dois equívocos recorrentes. A IWA 48 não substitui padrões destinados a disciplinar o conteúdo das divulgações financeiras ou de sustentabilidade. Tampouco se limita à preparação de um relatório. Sua função é estruturar o ambiente organizacional que sustenta as práticas, os dados e as informações ESG.
Em outras palavras, o relatório é consequência. Antes dele devem existir critérios de decisão, responsabilidades, controles, processos de coleta de dados, mecanismos de supervisão e capacidade de demonstrar como cada declaração foi produzida.
Agenda ESG em esforços integrados
A arquitetura da IWA 48 está apoiada em princípios transversais:integridade; foco em resultados; equidade; riscos e oportunidades; decisões baseadas em evidências; e maturidade.
A integridade compreende ética, independência, objetividade, abertura, transparência e mecanismos efetivos de accountability. Não se trata apenas de evitar condutas ilícitas, mas de assegurar que as decisões e alegações relacionadas ao ESG sejam construídas sobre bases confiáveis e possam ser submetidas a exame crítico.
O foco em resultados impede que a organização confunda a existência de políticas, comitês, programas ou relatórios com a produção de efeitos concretos. Não basta demonstrar que determinada iniciativa foi criada. É necessário examinar quais resultados foram obtidos, quem foi afetado, quais consequências não pretendidas surgiram e em que medida as ações adotadas alteraram a realidade ambiental, social ou organizacional.
A equidade exige ponderação objetiva e justa dos interesses envolvidos, considerando não apenas acionistas, investidores e clientes, mas trabalhadores, fornecedores, consumidores, comunidades, grupos vulneráveis e gerações futuras.
A gestão de riscos e oportunidades deve contemplar tanto os efeitos do ambiente e da sociedade sobre a organização quanto os impactos produzidos pela organização sobre o ambiente e a sociedade. Essa perspectiva bidirecional é um dos elementos que aproximam o documento das discussões contemporâneas sobre materialidade financeira, materialidade de impacto e dupla materialidade.
O princípio baseado em evidências exige que decisões, indicadores, metas e alegações sejam sustentados por dados confiáveis, atuais, rastreáveis e passíveis de verificação.
A maturidade, por sua vez, afasta a ideia de que ESG seja uma condição binária, na qual uma organização simplesmente “possui” ou “não possui” boas práticas. O documento o trata como jornada progressiva, marcada pela incorporação cultural, pelo aperfeiçoamento dos controles, pela melhoria dos dados e pela integração crescente dos fatores ambientais e sociais à governança.
O efeito combinado desses princípios é significativo: o ESG passa a ser tratado menos como identidade comunicacional e mais como capacidade institucional demonstrável.
Riscos e oportunidades como elementos da estratégia
A IWA 48 atribui posição central à identificação e à gestão de riscos e oportunidades.
A organização deve examinar impactos diretos e indiretos, internos e externos, atuais e futuros, além de suas interdependências ao longo do ciclo de vida de produtos, serviços e cadeias de valor. Deve considerar causas imediatas, causas-raiz, efeitos sistêmicos, vulnerabilidades, horizontes temporais e consequências sobre diferentes partes interessadas.
A recomendação ultrapassa a visão tradicional de risco centrada exclusivamente na proteção do valor econômico da organização. O documento exige que sejam considerados os riscos e impactos impostos pela organização ao ambiente, às comunidades e à sociedade.
Isso modifica o processo decisório. Uma atividade pode ser financeiramente vantajosa e, ao mesmo tempo, produzir impactos sociais ou ambientais relevantes. Uma intervenção ambientalmente positiva em determinado território pode deslocar riscos para outra região. Um projeto de geração de empregos pode agravar escassez hídrica, mobilidade, pressão habitacional ou desigualdades locais.
A análise ESG, portanto, não pode operar por compartimentos isolados. Exige pensamento sistêmico e avaliação de efeitos cruzados.
O ciclo sugerido pelo documento envolve estabelecer prioridades, identificar riscos e oportunidades, avaliar probabilidade e magnitude, selecionar respostas, monitorar resultados e reportar periodicamente. Entre as respostas possíveis estão evitar, mitigar, adaptar, aceitar, transferir, monitorar, inovar ou escalar determinado tema.
A governança deve assegurar que esse processo disponha de recursos, responsáveis, critérios de tolerância, instrumentos de monitoramento e linhas claras de reporte.
Materialidade: O ponto de encontro entre impactos, riscos e decisões
A materialidade ocupa posição central na IWA 48.
O documento reconhece tanto os impactos do ambiente e da sociedade sobre a organização – frequentemente chamados de efeitos outside in – quanto os impactos da organização sobre pessoas, comunidades e ecossistemas – os efeitos inside out. Também diferencia materialidade financeira e materialidade de impacto, identificando a utilização conjunta dessas perspectivas com a lógica da dupla materialidade.
Ao mesmo tempo, distingue essa abordagem daquela adotada pelos padrões do ISSB, concentrados prioritariamente nas informações financeiras relacionadas à sustentabilidade relevantes para investidores e demais usuários dos relatórios financeiros de propósito geral.
Essa leitura é particularmente útil para o mercado brasileiro, que convive com diferentes matrizes regulatórias, técnicas e voluntárias.
A materialidade deixa de ser entendida como consulta genérica ou como matriz gráfica elaborada ao final de um processo. Deve orientar a avaliação de riscos, a seleção de prioridades, o planejamento estratégico, a alocação de recursos, a definição de metas, a escolha dos indicadores, o conteúdo do relato e, quando aplicável, o escopo da asseguração.
A organização deve identificar o universo de impactos antes de decidir quais serão priorizados ou divulgados. Não se admite a exclusão oportunista de temas apenas porque sejam difíceis de mensurar, reputacionalmente sensíveis ou incompatíveis com a narrativa institucional.
O processo indicado pela IWA inclui a definição de escopo e objetivos; a identificação dos impactos relevantes; a consideração de normas, regulação, benchmarks e práticas setoriais; o engajamento das partes interessadas; a criação de critérios transparentes de avaliação; a priorização dos impactos; a validação interna e externa; a integração dos resultados à estratégia e ao relato; e a revisão periódica.
Materialidade, portanto, não deve ser vista como fotografia estática. Eventos climáticos, alterações regulatórias, conflitos sociais, novas evidências científicas, transformações tecnológicas e mudanças nas cadeias de valor podem alterar a relevância dos temas entre dois ciclos regulares de reporte.
Clique aqui e confira o artigo na íntegra.
Fonte: Migalhas


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