Eventos extremos, tensão geopolítica, eleições no Brasil e o legado da COP30 moldam o ano decisivo para o futuro do clima
Eventos extremos, cenário geopolítico cada vez mais complexo, eleições no Brasil e continuação do legado da COP30: 2026 promete ser um ano decisivo para o futuro da agenda climática global.
Em Davos, o Fórum Econômico Mundial é um termômetro dos desafios que estão por vir. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deixou claro que o tema da crise climática deve ficar fora das reuniões bilaterais e dos compromissos oficiais dos quais o país participará.
Para analistas, é um sinal negativo de recuo da pauta ambiental no centro do poder econômico global, justamente em um momento em que o risco climático está em evidência e a pressão por ação aumenta.
É nesse contexto de retração internacional que o Brasil terá que provar sua liderança verde. A grande conferência climática em Belém deixou avanços significativos, especialmente fora das mesas de negociação, e o Brasil prometeu uma agenda de ação ambiciosa paralela ao processo formal da ONU: construir os “mapas do caminho” ou os roteiros nacionais para o fim dos combustíveis fósseis e do desmatamento.
Para quem pensou que a pauta ia “esfriar” ou ser deixada em segundo plano, se esqueceu que a presidência brasileira da COP liderada pelo embaixador André Corrêa do Lago começou oficialmente em Belém e termina em novembro, na próxima COP31 da Turquia.
Ou seja, os trabalhos estão a todo vapor e só vão se intensificar nos próximos meses para acelerar a implementação do “Pacote de Belém”, que engloba 29 decisões sobre temas como transição justa, financiamento da adaptação, tecnologia e gênero, e o “Mutirão Global” para ação climática, com progressos em adaptação e o compromisso de triplicar o financiamento até 2035.
“É a grande virada de chave. Saímos do mote da negociação e criamos uma agenda de ação. Embora seja voluntária, traz um impulso político muito importante”, destacou em entrevista à EXAME Viviane Romeiro, diretora de Clima e Energia do CEBDS, reforçando o papel do setor privado.
Para Claudio Ângelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, os roteiros aprovados na COP30 devem dominar as discussões rumo à COP31.
“O maior interesse será nos roadmaps. O quão envolvente será esse movimento e quão completos serão esses roteiros, especialmente o de fósseis”, avaliou à EXAME.
Já Carol Rocha, diretora executiva da rede LACLIMA, reforça que “precisamos fazer com que eles não sejam apenas documentos, e sim um local de articulação política onde esse tema precisa ser endereçado de uma forma que englobe todos os países”.
Mas se no cenário global o foco está nos roteiros climáticos, dentro do Brasil a atenção se volta para as eleições de outubro.
“A principal garantia de que vamos ter alguma proteção ao meio ambiente no Brasil em 2026 é não deixar a extrema direita voltar ao poder”, destacou Ângelo.
O alerta vem após um fim de 2025 marcado por retrocessos no Congresso Nacional, com a queda dos vetos do licenciamento ambiental e a abertura para o chamado PL da devastação.
Mas afinal, quais eventos vale ficar de olho em 2026? Entre encontros técnicos, conferências ministeriais e grandes cúpulas globais, o ano será intenso. Confira a seleção da LACLIMA:
Agenda climática de 2026
CCXG Fórum Global
📍 Paris, França | 17-18 de março
Organizado pela OCDE e IEA, o fórum promove diálogo entre países sobre negociações climáticas e implementação do Acordo de Paris, com foco nos preparativos para o segundo GST e na decisão da COP30 sobre o Objetivo Global de Adaptação.
CMS COP 15 – Conferência sobre Espécies Migratórias
📍 Campo Grande (MS), Brasil | 23-29 de março
Realizada a cada três anos, reúne países-parte do tratado para avaliar avanços na proteção de espécies migratórias e definir prioridades para o próximo triênio.
Diálogo de Petersberg
📍 Berlim, Alemanha | Março ou abril (a definir)
Reunião ministerial informal que antecede a COP, reunindo países vulneráveis e grandes economias do G20 para fortalecer cooperação e preparar negociações.
Diálogo de Copenhague
📍 Copenhague, Dinamarca | Março ou abril (a definir)
Encontro ministerial informal que reúne países-chave para construir confiança política, alinhar posições e destravar impasses em temas como financiamento climático e transição justa.
Conferência Internacional sobre Transição Justa para longe dos Combustíveis Fósseis
📍 Santa Marta, Colômbia | 28-29 de abril
Evento inédito coorganizado pela Holanda, dedicado exclusivamente à eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, discutindo caminhos legais, econômicos e sociais para uma transição justa.
Reunião Ministerial da OCDE sobre Clima e Meio Ambiente
📍 Paris, França | Maio ou junho (a definir)
Espaço estratégico onde ministros orientam o trabalho da OCDE em temas ambientais e climáticos, promovendo cooperação internacional. Acontece a cada quatro anos.
SB64 – Conferência de Bonn
📍 Bonn, Alemanha | 8-18 de junho
Principal conferência técnica fora da COP, onde são construídos os textos-base para as negociações, definidas posições técnicas e mapeados impasses políticos. “A COP começa tecnicamente em Bonn.”
Climate Weeks Oficiais da UNFCCC
📍 Ásia-Pacífico (1º semestre) e Europa Oriental (2º semestre)
Lideradas pelo secretariado da UNFCCC, conectam o processo intergovernamental às necessidades reais de implementação, reunindo governos e atores não estatais.
UNCCD COP17 – Convenção de Combate à Desertificação
📍 Ulaanbaatar, Mongólia | 17-28 de agosto
Aborda desertificação, degradação dos solos e seca, impulsionando soluções para restauração de terras e fortalecimento da resiliência em regiões áridas.
CBD COP17 – Convenção sobre Diversidade Biológica
📍 Yerevan, Armênia | 19-30 de outubro
Principal conferência global sobre biodiversidade, definindo metas para proteger e restaurar a biodiversidade em conformidade com o Quadro Global de Kunming-Montreal.
Pré-COP31
📍 Ilha do Pacífico (a definir) | Outubro (a definir)
Reunião ministerial fechada onde se destravam impasses políticos e negociam-se compromissos de última hora. “A COP começa politicamente na Pré-COP.”
COP31 – Conferência do Clima da UNFCCC
📍 Antalya, Turquia | 9-20 de novembro
O grande palco das negociações climáticas globais, com presidência compartilhada inédita: Turquia como anfitriã e Austrália liderando as negociações. Espera-se avanços em adaptação, transição justa e implementação de metas climáticas.
‘Semanas do Clima’ organizadas pela sociedade civil
- Los Angeles Climate Week (EUA): 8-18 de abril
- San Francisco Climate Week (EUA): 18-26 de abril
- Rio Nature & Climate Week (Brasil): 1-6 de junho
- London Climate Week (Inglaterra): 21-29 de junho
- São Paulo Climate Week (Brasil): Agosto (datas a confirmar)
- New York Climate Week (EUA): A partir de 21 de setembro
Fonte: Exame


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