A efetividade da transição climática no Brasil depende de alinhar metas ambientais, segurança hídrica e justiça climática

O Dia da Terra deste ano encontra o Brasil em uma posição geopolítica de grande relevância e complexidade. Fomos sede da COP30 e, simultaneamente, permanecemos como palco de desafios e oportunidades singulares que a emergência climática impõe ao Sul Global.

A presidência brasileira da Conferência do Clima lançou seus “mapas do caminho”, documentos que miram pontos nevrálgicos como o afastamento progressivo dos combustíveis fósseis e a reversão e o combate ao desmatamento.

Contudo, para que a topografia real desses mapas se materialize, é fundamental alinhar uma escala temporal ambiciosa para o atingimento do Net Zero até 2050 e, sobretudo, reconhecer a interconexão das questões climáticas em uma única e intrincada multicrise planetária.

O tema do Dia Mundial do Meio Ambiente de 2026 já sinaliza uma mudança importante: o foco intenso na ação climática sistêmica.

A conversa, finalmente, se expandirá para além das toneladas de carbono ou hectares desmatados e se tornará um debate sobre a urgência de reparar e fortalecer nossa relação com o ecossistema global.

Enquanto o setor empresarial assimila os desdobramentos da COP em Belém, buscando formas de integrar as novas diretrizes, é essencial promover um diálogo que traga clareza ao reposicionamento global da pauta climática e ambiental.

Surge, então, a reflexão: como as empresas brasileiras podem se preparar para navegar esses mares, alinhando-se aos planos de navegação que serão propostos pela UNFCCC em conjunto com a Presidência da COP30?

Para que os mapas do caminho da COP30 se integrem de forma estratégica — com a descarbonização industrial caminhando lado a lado com a proteção florestal —, é preciso um olhar sistêmico. A ciência dos limites planetários, dos quais já extrapolamos sete das nove fronteiras, nos mostra, de forma inequívoca, que a crise humanitária não é dissociável da multicrise planetária.

Somos o principal vetor dessa extrapolação, e as populações que menos emitem são justamente as que primeiro sentem a sede e a fome dessa desordem. Por isso, faz-se cada vez mais necessário um olhar atento e orientado para a mudança.

Isso nos convida, como sociedade, a repensar economias e a reparar a relação humana com o clima para garantir justiça e sustentabilidade. Para o setor privado brasileiro, isso representa uma oportunidade estratégica, alinhada à agenda de negócios que já está posta na mesa.

Para que a transição energética seja verdadeiramente efetiva e justa, é crucial garantir que o afastamento dos combustíveis fósseis não deixe para trás comunidades extrativistas e periferias urbanas. Uma transição que resulte em uma economia verde excludente representaria um retrocesso nos objetivos de desenvolvimento sustentável.

O dia a dia dos pesquisadores de soluções para abastecimento de água potável em comunidades vulneráveis reforça a urgência de que a adaptação seja priorizada com a mesma intensidade da mitigação — e de que o setor privado pode atuar como agente transformador nessa frente.

É fundamental que a zeragem do desmatamento caminhe lado a lado com soluções que garantam a segurança hídrica da agricultura familiar e protejam as comunidades tradicionais e indígenas.

Por isso, a virada de chave para 2026 convida o setor privado a ir além do apoio a debates, tornando-se protagonista na execução de soluções adaptativas e de resiliência climática.

Felizmente, os ventos já sopram nessa direção. Iniciativas como o Movimento Ambição Net Zero, do Pacto Global da ONU, agora incluem em seus compromissos públicos a exigência de que a estratégia climática corporativa integre, de forma indissociável, uma transição de operações de baixo carbono justa.

Trata-se do reconhecimento de que a descarbonização não pode ser um processo puramente técnico; ela precisa ser, acima de tudo, um processo de reparação social.

E aqui permito-me evocar a sabedoria que emerge das confluências. O NAC (Núcleo de Ações Coletivas em Justiça Climática e Transição Justa), principal iniciativa do Pacto Global com o setor privado para esse fim, traz em sua própria identidade visual o desenho da confluência dos rios.

Este não é um mero detalhe estético. É o saber ancestral disseminado pelo mestre quilombola Nego Bispo, que nos ensina que os rios não se encontram para se sobrepor, mas para se fortalecer e seguir em frente, partilhando o leito.

As empresas brasileiras estão todas convidadas a integrar o traçado da redução de emissões com o curso d’água do combate à desigualdade. A plena efetividade da estratégia de desmatamento zero será alcançada quando confluir com a estratégia de justiça climática, evitando que esforços isolados se diluam no tempo.

Ou seja, é necessário que todos atuemos em conjunto.

O Dia da Terra de 2026, impulsionado pelo Dia Mundial do Meio Ambiente, é um convite direto às lideranças empresariais para o redesenho de economias, sistemas e modelos sociais inteiros.

Que possamos utilizar esses mapas para construir um plano de navegação no qual a economia circular, a agroecologia e os projetos baseados na natureza não sejam apêndices da pauta climática, mas sim direcionadores do destino da confluência para um planeta justo e habitável.

Fonte: Exame

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