O ideal é evitar que o índice de crescimento em torno do ESG se torne apenas uma superfície polida
A frase que marcou o auge do entusiasmo global pelo ESG talvez tenha sido a de Larry Fink, CEO da maior gestora de ativos do mundo, a BlackRock. Para ele, os próximos 1.000 unicórnios do mundo seriam ESG. Essas novas startups iriam ajudar o mundo a descarbonizar-se e tornar mais acessível a transição energética.
Passados apenas quatro anos, este cenário foi substituído por um mundo polarizado e geopoliticamente mais frágil. A sustentabilidade corporativa atual enfrenta vulnerabilidades em um mercado em transformação, onde até o debate sobre o ESG pode ser acirrado ou silenciado.
Para alguns, o ESG está em conflito com a sobrevivência financeira das empresas e disperso em meio a um universo político mais radicalizado; mas ao mesmo tempo continua a ser um imperativo ético e estratégico para as empresas, do qual não é possível abrir mão. O que os dois lados anteveem, certamente, é que o ESG tem pela frente um cenário complexo e desafiador, apontando para dois caminhos: construir uma estrutura de resiliência consistente ou ser submetido a uma jornada de superficialidades.
O certo é que os critérios ESG têm entrado em muitas oportunidades no “modulo silencioso” e “quando a sustentabilidade é enquadrada como um projeto elitista, torna-se mais fácil para os oponentes apresentá-lo como uma ameaça aos empregos, à liberdade ou até mesmo à identidade nacional”, alerta os pesquisadores Ioannis Ioannou, Sean Millard e Mark Stringer, da London Business School.¹
Contudo, nem todos silenciam. De acordo com a Corporate Governance Institute, as ambições da Europa e Ásia em ESG são consistentes, sustentadas por arquiteturas regulatórias, pressões de mercado e estratégias industriais que transformam a sustentabilidade em política econômica. Para atores privados, isso significa que ESG deixou de ser um tema periférico de conformidade e passou a ser um fator central de competitividade e acesso ao capital globalmente. ² Porém, um sinal contrário vem do Banco Mundial, que recuou de sua meta de destinar 45% de seu financiamento a projetos climáticos.
Afinal, em que medida o ESG tende a deixar a esfera da conformidade e valorizar o impacto? O que isso quer dizer? Seria um retorno à proposta inicial do Pacto Global, bastante ambiciosa, de transformar o ESG, de um regime de conformidade para um motor de impacto mensurável e sistêmico, alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)? Isso exige mudança institucional, capacidade técnica para mensuração e disposição para cooperação entre empresas, investidores e governos.
Na verdade, há uma controvérsia em jogo. Enquanto a União Europeia busca métricas rigorosas para divulgação de informações ESG e mensuração dos riscos ambientas e sociais; os Estados Unidos, promovem um afastamento do ESG, retomando a cultura das organizações de priorizar acionistas em detrimento dos stakeholders, como ensinava a linha neoliberal do economista Milton Friedman.
Certamente, o ESG não pode ser entendido como mera conformidade porque exige transformação de resultados socioambientais reais, integração estratégica e mensuração de impactos. Tem a ver com eficiência, acesso a capital, gestão de risco, atratividade de equipes, endosso do cliente, diversidade etc. Decisão recente da Justiça francesa deixa isso claro quando condenou uma das gigantes de energia a incluir as emissões de gases de efeito estufa de seus clientes nos seus riscos e impactos climáticos , consolidando o Escopo 3 – relativo a emissões indiretas presentes na cadeia de valor da companhia.
Entre avanços e recuos, a situação do ESG pode ser comparada ao conceito de “Liso” do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han³, descrito por ele como uma estética de superfície, onde tudo é polido, sem resistência, sem fricção. Se a gente olha para o estágio atual do ESG, ele também passa por uma padronização que, às vezes, pode nos levar a correr o risco de ficar só na superfície, num discurso “sem conflitos”, sem profundidade.
Han explica o “liso” como sendo a marca do presente, que corporifica a positividade da sociedade atual: “Não opõe resistência. Exige likes. O objeto liso extingue seus contrários. Toda negatividade é posta de lado”. Cita e compara a um modelo de carro (DS da Citroën), capaz “de levar a uma nova fenomenologia do ajustamento perfeito, como se passássemos de um mundo de elementos soldados a um mundo de elementos justapostos, que, com toda certeza, apenas pela virtude da forma maravilhosa, têm a incumbência de introduzir a ideia de uma natureza mais fácil”.
No mundo do ESG, o conceito do “liso” pode significar que os critérios ambientais, sociais e de governança fiquem lastreados em taxonomias sem o devido peso e indicadores que não toquem realmente nas mudanças estruturais, sem gerar impactos profundos, permanecendo numa perspectiva de greenwashing. É como se o ESG corresse o risco de virar um conceito sem substância.
Há muitos riscos globais, segundo o Fórum Econômico Mundial, no cenário do ESG, onde há 600 diferentes padrões de relatórios, podendo comprometer sua integridade. Além disso, há os riscos de curto prazo (confronto geoeconômico, desinformação e má informação, polarização societal, eventos climáticos extremos e conflitos armados entre os Estado) e os de longo prazo (eventos climáticos extremos, perda da biodiversidade e colapso do ecossistema, mudanças críticas nos sistemas terrestres, desinformação em informação e resultados adversos das tecnologias de IA).
Em sua análise sobre o mercado de capital, o Fórum Econômico Mundial pontua que “a utilização de metas ESG explícitadas em títulos corporativos e soberanos, em vez de metas teóricas e intangíveis, deve permitir que os investidores compreendam o que esperar e também estabeleçam uma forma de controle disciplinado. Isso lhes permitirá direcionar suas preocupações para o caminho certo e gerar um impacto real por meio de seus portfólios de investimento”.4
Paralelamente, há uma carência de pesquisas que promovam uma análise crítica e comparativa sobre o ESG em mercados emergentes, caso do Brasil, abarcando marcos regulatórios e níveis de desenvolvimento financeiro e diversidade regional. O conceito de mercados emergentes pode ser caracterizado como “economias em transição para níveis mais elevados de industrialização, integração financeira e consolidação institucional, marcadas por um significativo potencial de crescimento, mas ainda limitadas por vulnerabilidades estruturais e regulatórias”.5
No debate contemporâneo, o desenvolvimento não é mais entendido como sinônimo de crescimento econômico. Se o PIB é a somatória de todos os produtos da economia do país; o crescimento — medido por indicadores como produtividade, formação bruta de capital, taxa de emprego e balança comercial expressa a capacidade de expansão material de uma economia – tem um grande percentual atribuído aos pilares ESG.
O ideal é evitar que o índice de crescimento em torno do ESG se torne apenas uma superfície polida, um “liso” estatístico que mascara tensões reais. O desenvolvimento autêntico exige fricção, negatividade, conflito produtivo — elementos que Han considera essenciais para romper a superficialidade. A comparação mostra que desenvolvimento contemporâneo só existe quando o crescimento econômico é subordinado à sustentabilidade e ao debate continuado e consistente. O conceito de “liso” funciona como uma crítica filosófica que nos alerta para o risco de transformar indicadores em superfícies sedutoras, mas vazias.
¹ https://www.london.edu/think/what-the-esg-backlash-reveal
² https://www.thecorporategovernanceinstitute.com/insights/news-analysis/the-future-of-esg-in-2025/?srsltid=AfmBOooesHVueCVoBObAg6rVa9Dg9Xq4_1AbLtmjygFs4fTo
³ HAN, Byung-Chul. A Salvação do Belo.8ª ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2026
4 https://www.weforum.org/stories/2022/07/still-reason-for-optimism-about-esg-investing/?gad_source=1&gad_campaignid
5 https://www.mdpi.com/2076-3387/16/6/294
Fonte: Jota


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